A abertura de capital da Caixa Seguridade, em abril de 2021, integrou um plano amplo de venda de participações em negócios ligados à Caixa Econômica Federal, conduzido durante a gestão de Pedro Guimarães na presidência do banco. Além da área de seguros, o executivo anunciou planos de levar outras operações à Bolsa, incluindo cartões, gestão de recursos, loterias e o banco digital Caixa Tem.
A operação foi marcada por denúncias de assédio moral e pressão sobre os empregados para a venda das ações. Em abril de 2021, o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região protocolou representações na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contra possíveis irregularidades na oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da Caixa Seguridade. Entre os pontos questionados estavam possíveis descumprimentos das regras de oferta pública e de adequação dos investimentos ao perfil dos clientes (leia aqui).
O Sindicato e a Apcef/SP receberam denúncias de empregados de cobranças abusivas, além da determinação de vender as ações a clientes que não possuíam o perfil. As ocorrências incluíam fixação de metas individuais de até R$ 1 milhão por gerente, além de situações de empregados que se sentiram pressionados a comprar os papéis (leia aqui).
A mobilização das entidades representativas contribuiu para reverter essas cobranças. Em reuniões com representantes dos trabalhadores, os representantes da direção da Caixa afirmando que as metas deveriam ser estabelecidas para as unidades para as unidades, e não para os empregados, individualmente, comprometeram-se a acompanhar os casos denunciados com o não descomissionamento dos gerentes que eventualmente não cumprissem os objetivos (leia aqui).
Greve nacional em defesa da Caixa pública
Diante das denúncias e do avanço da operação, empregados da Caixa de todo o país realizaram uma greve de 24 horas em 27 de abril de 2021, em defesa do banco público e contra o processo de venda de participações em negócios rentáveis da instituição (leia aqui).
A paralisação ocorreu dois dias antes da estreia das ações da Caixa Seguridade na Bolsa, em 29 de abril. Após a mobilização, a direção aplicou medidas contra os grevistas: empregados que aderiram à paralisação tiveram o dia registrado como falta não justificada, com risco de descontos adicionais referentes ao fim de semana e de impactos na carreira (leia aqui).
A Caixa tentou declarar a greve abusiva, por meio de ação judicial proposta junto ao TST, alegando que a motivação para o movimento seria política, e que a greve estaria ocorrendo fora da data-base da categoria. O ministro relator, Maurício Coutinho Delgado, porém, reconheceu que o movimento era legítimo, e que incluía uma exntensa pauta de reivindicação dos empregados defendida pelas entidades sindicais (leia aqui). Posteriormente Sindicato propôs com ação judicial para reverter o desconto do dia, que foi finalizada em 2025, com a devolução dos dias aos grevistas.
Um plano amplo de abertura de capital
A Caixa Seguridade não era o único negócio que Pedro Guimarães pretendia levar ao mercado de ações. Em janeiro de 2021, o então presidente da Caixa afirmou que o banco planejava vender participações em cinco áreas: seguridade, cartões, gestão de recursos, loterias e banco digital.
Nos meses seguintes, Guimarães também mencionou a possibilidade de abertura de capital da Caixa Asset, responsável pela gestão de recursos, da Caixa Cartões e do Caixa Tem, que seria convertido em banco digital e transformado em subsidiária. Para o banco digital, chegou a cogitar a negociação de ações no Brasil e no exterior.
Daniella Marques deu continuidade à estratégia
Após a saída de Pedro Guimarães, em junho de 2022, a economista Daniella Marques assumiu a presidência da Caixa, em julho daquele ano. Próxima do então ministro da Economia, Paulo Guedes, ela havia ocupado cargos no Ministério da Economia durante o governo Bolsonaro e deu continuidade à estratégia de monetização de subsidiárias do banco público.
Em agosto de 2022, Daniella defendeu a venda de participações em empresas do grupo. Entre os exemplos, citou a Caixa Seguridade, que já havia estreado na Bolsa, e a Caixa Asset, cuja oferta de ações havia sido adiada.
Quatro anos depois, Daniella voltou ao centro do debate econômico como coordenadora da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Em setembro de 2026, ela negou que o candidato pretendesse privatizar a Caixa e afirmou que o banco continuaria tendo papel na execução de políticas públicas. Ao mesmo tempo, defendeu a avaliação de empresas estatais para identificar aquelas que, em sua visão, não deveriam continuar existindo.
Reportagens sobre as propostas econômicas de Flávio Bolsonaro apontam medidas de redução dos gastos públicos e a retomada de iniciativas de desestatização. Embora a privatização da Caixa tenha sido descartada por Daniella, permanecem questões sobre o futuro das subsidiárias, a participação do Estado na economia e os critérios que seriam utilizados para decidir quais empresas públicas devem ser mantidas.
Para os empregados da Caixa e para a população que depende dos serviços oferecidos pelo banco, acompanhar essas propostas é fundamental. Decisões sobre empresas estatais e políticas de desinvestimento podem afetar a estrutura do banco, sua capacidade de atendimento, os empregos e a execução de políticas públicas.
“Em ano eleitoral, conhecer o histórico dos candidatos, suas declarações e os projetos econômicos que defendem é essencial para fazer uma escolha consciente. É importante avaliar quais interesses cada projeto prioriza e quais consequências suas medidas podem trazer para o país, para os serviços públicos e para os trabalhadores”, reforçou a presidenta da Apcef/SP, Vivian Sá.