A concessão de empréstimos bilionários pela Caixa Econômica Federal em 2022, ano das eleições presidenciais, tornou-se alvo de denúncias de uso político do banco público e de questionamentos sobre os riscos assumidos pela instituição. Reportagem publicada pelo UOL em maio de 2023 apontou elevados índices de inadimplência em duas linhas de crédito criadas durante o governo Jair Bolsonaro e relacionou as operações à redução das reservas de liquidez da Caixa.

Segundo a reportagem, o banco liberou R$ 10,6 bilhões para 6,8 milhões de pessoas por meio de duas modalidades: o SIM Digital, voltado ao microcrédito e que também atendia pessoas com restrições de crédito, e o empréstimo consignado para beneficiários do Auxílio Brasil. As medidas foram associadas à estratégia de Bolsonaro de ampliar seu apoio eleitoral entre a população de baixa renda.

Os questionamentos, porém, começaram antes da divulgação desses dados. Em maio de 2022, a Contraf-CUT já alertava para o possível uso da Caixa com finalidade eleitoral e para os riscos de conceder crédito a pessoas em situação de vulnerabilidade financeira.

Inadimplência elevada e riscos para o banco público

Criado em março de 2022, o SIM Digital oferecia microcrédito inclusive a pessoas negativadas. Até as eleições, a Caixa havia emprestado cerca de R$ 3 bilhões por meio dessa modalidade. De acordo com a reportagem do UOL, o programa apresentava um índice de inadimplência próximo de 80% em 2023.

A segunda modalidade era o consignado para beneficiários do Auxílio Brasil. Entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2022, a Caixa concedeu R$ 7,6 bilhões nessa linha, com parcelas descontadas diretamente do benefício social.

As operações foram criticadas por especialistas e entidades representativas, que alertaram para o risco de ampliar o endividamento de famílias de baixa renda. Ao comprometer parte de recursos destinados à subsistência, os empréstimos poderiam agravar a vulnerabilidade financeira de pessoas que já enfrentavam dificuldades econômicas.

Após as eleições, a concessão de crédito nas duas modalidades foi interrompida. O SIM Digital foi suspenso após a saída de Pedro Guimarães da presidência da Caixa, em junho de 2022, enquanto o consignado do Auxílio Brasil deixou de ser oferecido depois do pleito.

Para a Contraf-CUT, os desdobramentos das operações reforçaram os alertas feitos ainda durante a campanha eleitoral sobre os riscos financeiros e sociais dessas iniciativas.

Uso político e impactos para a Caixa

A Contraf-CUT também questionou a utilização de iniciativas da Caixa para promover a imagem do governo Bolsonaro. Em setembro de 2022, a entidade criticou a divulgação do programa Caixa Pra Elas, lançado em agosto daquele ano, durante a gestão de Daniella Marques, que assumiu a presidência do banco após a saída de Pedro Guimarães.

Apresentado como uma iniciativa de apoio às mulheres, o programa previa ações de orientação financeira, incentivo ao empreendedorismo e combate à violência. No entanto, houve críticas e denúncias de que, na prática, a iniciativa teria se limitado a um cartaz na parede, sem produzir mudanças efetivas na realidade das mulheres.

A Confederação também apontou semelhanças entre a divulgação do programa e outras ações de promoção institucional realizadas em período eleitoral. Além disso, denunciou o aumento das metas comerciais cobradas dos empregados e, em outubro de 2022, relatou cortes de verbas destinadas ao funcionamento das agências.

Os episódios levantaram questionamentos sobre as prioridades da gestão do banco público: de um lado, a ampliação da oferta de crédito e a divulgação de programas em ano eleitoral; de outro, os riscos financeiros das operações, as condições de trabalho e a necessidade de preservar a capacidade da Caixa de cumprir suas funções sociais.

Para as entidades representativas dos trabalhadores, a transparência na concessão de crédito e a responsabilidade na gestão dos recursos públicos são fundamentais para evitar que decisões orientadas por interesses políticos comprometam o patrimônio da instituição e prejudiquem a população que depende de seus serviços.

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