Durante a gestão de Pedro Guimarães na presidência da Caixa, de janeiro de 2019 a junho de 2022, uma série de atos de gestão e mudanças administrativas e operacionais causaram prejuízos entre os empregados e demandaram a atuação das entidades representativas no enfrentamento às medidas. A reestruturação das áreas, as transferências arbitrárias, os programas de desligamento e a acusação infundada de nomeação política até mesmo de gerentes gerais para justificar a realização de reavaliação individual para sua manutenção nas funções (o chamado “Revalida”) são parte das ações promovidas pela direção logo em seu primeiro ano.
Transferências arbitrárias, reestruturação e “redução de despesas”
Em seus primeiros dias à frente da Caixa, Pedro Guimarães afirmou ter substituído todos os vice-presidentes, 38 dos 40 diretores e 74% dos 84 superintendentes regionais. O então presidente também anunciou medidas para reduzir despesas, como a venda de imóveis, a revisão de contratos e o corte de gastos com patrocínios e publicidade. Sem qualquer planejamento, estudo dos impactos ou divulgação dos números envolvidos, Guimarães declarou que pretendia reduzir R$ 3,5 bilhões em despesas e questionou a quantidade de prédios ocupados pelo banco, citando sete edifícios na Avenida Paulista, em São Paulo, e 15 em Brasília.
Em junho de 2019, a direção anunciou a transferência de mais de 800 empregados com função incorporada e/ou aposentados pelo INSS, vinculados a determinadas vice-presidências da Matriz e de filiais (inclusive da TI). A medida foi contestada pelas entidades representativas, que criticaram a falta de negociação e alertaram para os riscos de sobrecarga nas áreas administrativas e os impactos no atendimento à população.
Diante da situação, a Apcef/SP apresentou denúncia ao Ministério Público do Trabalho (MPT). A entidade questionou especialmente os impactos sobre aposentados e empregados com função incorporada, além de transferências que exigiam grandes deslocamentos. A denúncia também apontou possíveis irregularidades envolvendo cipeiros, delegados sindicais e trabalhadores com restrições registradas nos sistemas internos da Caixa.
Os cortes nas pessoas também incluiu o anúncio de Programas de Desligamento Voluntário (PDVs) em 2019, sem a reposição de quem foi desligado. No primeiro ano, cerca de 3.500 empregados aderiram ao programa, especialmente os que foram alvo das transferências arbitrárias; em 2020, mais de 2 mil trabalhadores foram desligados por meio do PDV. As entidades alertaram que a diminuição do quadro funcional poderia agravar a falta de trabalhadores nas unidades, e lutavam pela contratação dos aprovados no concurso de 2014 (cuja validade foi mantida em Ação Civil Pública do MPT, Contraf-CUT e Fenae), e pela contratação de PCD’s para o cumprimento da legislação.
Em setembro de 2019, a Caixa anunciou o fechamento de três Superintendências Regionais: BH Norte, Ipiranga e Pinheiros. A decisão afetou dezenas de empregados. Em São Paulo, cerca de 80 agências passaram a ser atendidas por outras estruturas. APCEF/SP e Sindicato buscaram a negociação para preservar a renda dos empregados afetados pelo processo.
Em janeiro de 2020, a reestruturação avançou com o anúncio de um plano nacional que previa a redução de 84 para 54 o número de Superintendências Regionais, a redução de empregados e da estrutura nas remanescentes e o fim dos Gerentes Regionais das SR’s, acabando com o suporte oferecido aos segmentos. As mudanças não parariam por aí: com a proposta de aprofundamento da verticalização, seria imposto um novo gabarito de funções, alterando a nomenclatura das funções então existentes, e a revisão do número de cargos em cada unidade, de acordo com as métricas definidas pela gestão PG.
Em muitos casos, não haveria vagas para contemplar os então ocupantes das funções existentes equivalentes às que foram criadas. Também não haveria qualquer garantia de permanência na mesma unidade, mesmo que houvesse função equivalente no novo gabarito. Ou seja, mais um enxugamento, sendo que São Paulo e Rio de Janeiro (exatamente as regiões em que há maior concorrência com instituições financeiras privadas) estavam entre os estados mais afetados pela redução de cargos.
Diante da falta de informações e de negociação (que nestes casos, é prevista em acordo coletivo), a Contraf-CUT recorreu à Justiça. Em fevereiro de 2020, obteve uma liminar que suspendeu temporariamente a implementação da reestruturação até a realização de tratativas na mesa permanente de negociação. A decisão também estabeleceu prazo mínimo para adesão ao processo.
Com a obtenção da liminar e o início da discussão com a direção da Caixa sobre o impactos da reestruturação na vida dos empregados, parte dos prejuízos previstos foi mitigado, graças à ação da representação dos empregados na mesa de negociação. O tempo para manifestar interesse nas movimentações foi ampliado, e, além disso, foi garantido ao empregado que já era detentor de função o direito à permanecer em função equivalente prevista no gabarito de sua unidade, através do “Confirma Varejo”.
Além disso, a negociação resultou no aumento do número de funções de assistente, Gerente de Carteira e do número de Superintendências Executivas (originalmente, estavam previstas 350, e acabou sendo implementado um total de 420, entre SEV’s, SEG’s e SEH’s). Oss empregados que tinham mais de dez anos de função e que não tinham vagas em função equivalente em sua unidade ou em unidade dentro de sua região geográfica, e que não queriam aceitar o decesso, tiveram o descomissionamento lançado por códigos que o RH 151 (que está vigente e está sendo aplicado por força da liminar concedida na ação judicial proposta pela Contraf-CUT) passaram a receber o adicional de incorporação.
Revalida”: PG coloca em xeque todos os empregados ocupantes de cargos de gestor chefe das unidades
Ao tomar posse, Pedro Guimarães afirmou que iria promover uma “limpa” na Caixa, acabar com as “nomeações políticas” que alegava existirem no banco, e afastar dos cargos de gestor chefe das unidades pessoas que não seguissem os parâmetros definidos pela presidência da instituição. Pretendia, assim, impor uma mudança em larga escala, atingindo milhares de funções, desde as VP’s até chegar aos Gerentes Gerais das agências. Assim criou-se o “Revalida”, no início de 2019, que também gerou profunda preocupação entre os empregados e severas críticas das entidades representativas. O instrumento de avaliação levantou questionamentos sobre a subjetividade dos critérios adotados e o risco de retirada de funções comissionadas com base em avaliações consideradas pouco transparentes.
As entidades cobraram explicações da direção e defenderam a suspensão do modelo, defendendo que a instituição reforçasse a impessoalidade e objetividade dos critérios de ascensão e decesso de funções que já existiam. O episódio reforçou as críticas aos métodos de avaliação e gestão de pessoas adotados naquele período e a defesa de critérios transparentes, respeito aos trabalhadores e proteção contra decisões arbitrárias. Após muita resistência, o “Revalida” não chegou a ser aplicado aos Gerentes Gerais das agências, preservando mais de 3 mil colegas Caixa.
O futuro da Caixa
O histórico das gestões anteriores ajuda a contextualizar o debate sobre os rumos da Caixa. Nas eleições de 2026, as propostas dos candidatos à Presidência apresentam diferentes perspectivas para a atuação do banco no crédito, na habitação e no desenvolvimento econômico.
O programa de Flávio Bolsonaro (PL) propõe transformar a Caixa no chamado “Banco da Prosperidade”, com uma plataforma física e digital que reúna crédito, orientação financeira, apoio ao empreendedorismo, financiamento habitacional e regularização de imóveis. A proposta também prevê apoiar pequenos empreendedores e famílias na formação de patrimônio. O histórico vivido pelos empregados na gestão nomeada quando a família Bolsonaro presidia a República mostra um cenário diferente.
Já o programa de Lula (PT) enfatiza a continuidade das políticas públicas e o papel do Estado no desenvolvimento econômico e social, incluindo iniciativas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida. Paralelamente, a Fenae e a Contraf-CUT apresentaram à campanha petista o documento A Caixa que o Brasil precisa (2027–2030), com propostas para fortalecer a função social do banco, a política habitacional, o FGTS e a valorização dos empregados.
“Conhecer o histórico da Caixa e das gestões anteriores é fundamental para entender as decisões tomadas. Processos de reestruturação, como o que ocorreu durante a gestão de Pedro Guimarães, impactam diretamente os empregados e a população. É importante contextualizar o debate sobre o futuro do banco e avaliar as propostas para os próximos anos”, afirma Vivian Sá, presidenta da Apcef/SP. “O debate sobre o futuro da Caixa envolve, portanto, mais do que a organização interna do banco. Está em jogo a manutenção da rede de atendimento, as condições de trabalho e o papel da instituição no financiamento habitacional e na execução de políticas públicas”, completou.