A Medida Provisória 995, que privatiza a Caixa aos pedaços, foi o tema que tomou conta da live realizada neste fim de semana pela página Resistência Carbonária, no Facebook. O debate, intermediado pela economista Lívia Sampaio, contou com a participação do diretor de Formação da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), Jair Pedro Ferreira; da deputada federal, Érika Kokay (PT/DF) e da cineasta Maria Augusta Ramos.

“Estão tirando patrimônio da população e levando para quem tem dinheiro. Na prática, é isto. Posso fazer aqui um discurso de meia hora, dizer nomes bonitos como ‘desenvestimento’, tudo para dizer – ‘estou tirando dinheiro, recursos e lucros do Estado Brasileiro, que é o acionista da Caixa, e estou mandando para um grupo que vai comprar ações. É isso”, avalia Jair Pedro Ferreira.

Jair Pedro citou a abertura de capital da Caixa Seguridade, confirmada pelo presidente do banco, Pedro Guimarães, na semana passada. “Os dois principais conglomerados financeiros do Brasil não vendem ações dessas operações de seguros porque elas são rentáveis. Quem é o acionista da Caixa hoje? É 100% o estado brasileiro. Quando vende uma parte dela, haverá um sócio privado para dividir o dinheiro”, explica.

Para a deputada federal Érika Kokay (PT/DF), a adoção de uma Medida Provisória para vender partes do banco público é uma manobra para desrespeitar o Congresso Nacional, já que, de acordo com a Constituição, é preciso uma autorização legislativa para vender estatais. Apesar das 412 emendas apresentadas para tentar barrar a MP, a deputada demonstra preocupação com a estratégia do Governo, que é concretizar as ações de privatização antes que a matéria seja apreciada pelo Congresso. “A MP é uma covardia porque ela tem uma vigência imediata, sem qualquer diálogo com o parlamento”, analisa.

A deputada acredita que a MP representa uma concepção de que o Estado deve ser mínimo para a população. “O Estado nunca foi mínimo para a elite. O Estado é extremamente generoso com a elite. É como o poema do Augusto dos Anjos, da mão que afaga e a mão que apedreja. A mão que afaga os banqueiros e os rentistas desse País é a mesma mão que apedreja a população brasileira”, compara.

Erika Kokay acredita que a subserviência de Bolsonaro com o mercado é uma tentativa de fazer com que o parlamento não julgue os processos de impeachment que chegaram ao Congresso. “Ele precisa manter a confiança do mercado para que ele possa continuar sem qualquer processo de impeachment. Com a bênção do Rodrigo Maia, que é o homem do mercado financeiro, e com a bênção de grande parte do Parlamento, que é fechada com a agenda do mercado financeiro”, explica. “O que o sustenta, na Câmara, e o que faz com que ele seja blindado e não sofra qualquer processo de impeachment é o próprio mercado, e a sua complacência e servilismo do governo”.

Não Toque em Meu Companheiro 

A cineasta e diretora Augusta Ramos revelou que decidiu lançar o filme nas plataformas digitais mesmo durante a pandemia porque o filme fala, também, sobre a importância da função social do banco público. E vê com preocupação a situação do banco neste cenário de privatizações. “A Caixa passa por um momento muito difícil. No fundo, Bolsonaro quer privatizar a Caixa”.

Além de contar a história de solidariedade e luta dos bancários, Guta propôs à Fenae que o filme fizesse um paralelo entre as medidas econômicas adotadas pelo governo Collor e as medidas liberais do Governo Bolsonaro. “Eu queria revisitar esta memória para falar do presente, para falar do hoje e para pensar no agora. E nesse modo neoliberalista de pensar o mundo, que afeta as relações sociais e as relações de trabalho”, conta.

Jair Ferreira participa do filme. Ele foi um dos 110 empregados demitidos durante a greve contada pelo documentário. Para ele, o período após a greve enfraqueceu a luta coletiva. Em sua opinião, a situação dos jovens empregados que entraram no mercado a partir dos anos 2000, é diferente, pois alguns direitos já estavam conquistados. “Eles não tinham a necessidade de lutar – havia bonança, o pleno emprego. Mas agora vai ter. A sociedade, a população começam a entender que ele (o trabalhador) está desempregado, subempregado e, se ficar doente, não vai ter plano de saúde. Acredito que agora ele vai começar a lutar pelos seus direitos coletivos”, explica.

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