No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, 2 de abril, fala-se muito sobre inclusão e respeito às pessoas autistas. No mundo do trabalho, porém, essa discussão ainda avança a passos lentos.

O autismo em adultos segue como um tema pouco conhecido, o que gera dificuldade de compreensão das limitações enfrentadas pelas pessoas que vivem esta condição desde o nascimento. Mas, para além do desconhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), existe o capacitismo que cria barreiras, gera adoecimento e sofrimento, e impede que trabalhadores autistas desenvolvam plenamente seu potencial.

Autismo na vida adulta: uma realidade invisível

Quando fala-se de autismo, é comum que o debate se concentre na infância. Mas o autismo não desaparece na vida adulta. Pessoas autistas crescem, estudam, trabalham e constroem suas trajetórias profissionais. Ainda assim, o autismo em adultos ainda é pouco considerado dentro das empresas.

Esse cenário contribui para que trabalhadores autistas enfrentem incompreensão, isolamento e expectativas irreais de adaptação a padrões que nem sempre levam em conta as diferentes formas de funcionamento de cada indivíduo.

O que é capacitismo?

Esse contexto também evidencia outro ponto fundamental: o capacitismo, que é o preconceito, a discriminação ou a exclusão direcionada a pessoas com deficiência – entre elas, as pessoas autistas, conforme reconhecido pela legislação brasileira.

No cotidiano profissional, ele pode se manifestar de diversas formas:
· Na desconfiança sobre a capacidade de trabalhadores autistas
· No questionamento de seus diagnósticos
· Na exigência de comportamentos padronizados
· Na ausência de ajustes simples que poderiam tornar o ambiente mais acessível e produtivo

Frequentemente, o problema não está na capacidade do trabalhador, mas, na falta de informação dos gestores e companheiros de trabalho, na ausência de políticas institucionais e no desconhecimento da legislação sobre direitos das pessoas autistas.

Ainda precisamos começar pelo básico: compreender o que é autismo, o que é capacitismo e por que ambientes de trabalho inclusivos são responsabilidade das instituições.

Informação é o primeiro passo

Essa realidade evidencia um desafio que precisa ser enfrentado com urgência. Quando o processo de informação e formação não acontece, as consequências recaem diretamente sobre os trabalhadores mais vulneráveis.

Sobrecarga sensorial e emocional

Na prática, isso se reflete diretamente no dia a dia profissional. Não há dúvida de que o trabalho é exigente para todos, especialmente em agências bancárias com altas demandas de atendimento ao público. Mas, para trabalhadores autistas, a questão vai além do cansaço.

Sem adaptações, o ambiente pode gerar sobrecarga sensorial e emocional intensa, com impactos reais na saúde e na permanência no trabalho. Em muitos casos, esse processo pode levar a episódios conhecidos como meltdown ou shutdown – respostas do organismo a níveis elevados de sobrecarga, e que não raro geram adoecimento psíquico e emocional. Em virtude da hipersensibilidade, os sintomas são mais intensos do que para a população normotípica.

Nessas situações, a pessoa pode enfrentar perda momentânea de controle emocional ou das funções motoras, que se refletem em dificuldade de se comunicar ou necessidade de isolamento para recuperar os sentidos.

O resultado pode ser sofrimento silencioso, desgaste emocional, afastamentos por licença, aumento do absenteísmo e, em muitos casos, o desperdício de talentos que poderiam contribuir de forma significativa para as equipes e para a própria instituição.

Problema estrutural, não individual

Não se trata apenas de uma questão individual, mas de um problema estrutural. Cada vez que a informação não circula, que gestores não recebem formação adequada ou que adaptações simples deixam de ser consideradas, perde o trabalhador – e perde também a instituição.

Ambientes de trabalho mais informados e preparados para lidar com a neurodiversidade tendem a ser mais eficientes, mais colaborativos e mais humanos.

Coletivo Caixa Autista: diálogo e construção

Diante desse cenário, um grupo de empregados da Caixa busca abrir diálogo dentro da instituição bancária sobre o capacitismo no ambiente de trabalho e sobre a realidade dos trabalhadores autistas.

O objetivo é contribuir para a construção de um ambiente mais informado, mais acolhedor e mais preparado para lidar com a diversidade neurológica presente nas equipes. Mais do que apontar problemas, o Coletivo quer colaborar na construção de caminhos, propondo ações de conscientização, compartilhando informações e fortalecendo práticas institucionais mais inclusivas.

Informação que vira ação

O desafio é claro: transformar informação em ação e inclusão em prática cotidiana.

Quando instituições se comprometem de verdade com a educação sobre autismo, com a escuta de trabalhadores autistas e com adaptações adequadas no ambiente de trabalho, todos ganham:
· Ganham as equipes, que passam a conviver com mais diversidade e novas formas de pensar
· Ganha a instituição, que aproveita melhor o potencial humano existente
· Ganham, sobretudo, os trabalhadores, que podem exercer suas capacidades em ambientes mais justos e respeitosos.

Nada sobre nós sem nós

Esse processo também precisa reconhecer um princípio fundamental do movimento das pessoas com deficiência: “Nada sobre nós sem nós.”

Ouvir trabalhadores autistas e incluí-los na construção das políticas e práticas institucionais não é apenas uma questão de representatividade – é uma condição essencial para que a inclusão aconteça de forma real e efetiva.

:: Dúvidas, sugestões ou denúncias sobre preconceito, envie e-mail para sindical@apcefsp.org.br.

A Apcef/SP encaminhará esse texto, que foi construído pelo Coletivo Autista Caixa, para conhecimento e auxílio da CEE Caixa nas rodadas de negociação com a direção da Caixa sobre o tema.

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