A diretora reflete sobre sindicalismo, maternidade e a presença feminina nos espaços de decisão no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher

A defesa dos direitos dos trabalhadores muitas vezes nasce da inquietação diante das desigualdades. No caso de Vivian Sá, diretora de Relações Sindicais, Sociais e Trabalhistas da Apcef/SP, essa consciência surgiu ainda muito cedo e se transformou, ao longo dos anos, em uma trajetória de compromisso com a organização coletiva e com a luta sindical.

Empregada da Caixa, sindicalista, mãe de quatro filhos e esposa, Vivian representa uma geração de mulheres que ampliam cada vez mais sua presença no movimento sindical e nos espaços de decisão.

Sua motivação para atuar na defesa dos trabalhadores surgiu antes mesmo de ingressar na Caixa. Ainda jovem, ao observar as desigualdades sociais, começou a refletir sobre o papel do trabalho e sobre as diferenças nas oportunidades.

“Eu não fui motivada de cara a defender os empregados da Caixa, mas sim todos os bancários. Quando comecei a entender a sociedade, ainda adolescente, percebi que tinha gente que não precisava trabalhar e gente que tinha muita dificuldade até para trabalhar. Ali pensei: alguma coisa de errada não estava certa”, relembra.

A carreira no setor bancário começou cedo. Aos 19 anos, Vivian já trabalhava em um banco público, o BESC. Aos 22, ingressou na Caixa Econômica Federal. Foi nesse período que passou a compreender mais profundamente o papel do movimento sindical.

“Eu gostava de trabalhar, de ter minha renda, de ter plano de saúde (coisa que eu nem sabia o que era até então), de ter vale-alimentação, refeição, férias remuneradas, fundo de pensão com contribuição da empresa. Mas na Caixa conheci o sindicato e entendi que essas coisas não eram apenas conquistas do meu mérito de trabalhadora concursada. Muitos desses direitos vieram de negociações da organização dos trabalhadores”, explica.

O primeiro contato mais próximo com o movimento sindical aconteceu após um convite do delegado sindical da agência onde trabalhava, Hamilton. A partir daí, a participação se tornou cada vez mais frequente. “Fui a reuniões, comecei a participar mais e me tornei delegada sindical na agência Ponte Rasa. Depois disso, conheci de fato a Apcef, porque comecei também a ser convidada para reuniões da associação”, lembra.

Posteriormente, foi convidada a integrar a direção do sindicato dos bancários e, em seguida, a diretoria da Apcef/SP. “Fico feliz em ter aceitado, porque aqui encontrei uma história de luta perene, que se modifica, mas não acaba. Agora faço parte dela de uma forma mais completa”, afirma.

Mulheres no movimento sindical: presença que fortalece a luta coletiva

Conciliar trabalho, militância sindical e vida familiar ainda é um desafio que muitas mulheres enfrentam diariamente. Para Vivian, parte dessas dificuldades está na própria forma como a sociedade organiza papéis e responsabilidades.

“Do ponto de vista da organização da sociedade, para uma trabalhadora e, depois, mãe, a dificuldade é imensa. Existe um julgamento interno que nasce dessa organização externa das coisas e que nos impõe sensações de culpa que, para os pais, não são iguais. Isso, por si só, é um sofrimento mental imensurável”, observa.

Ela explica que, no movimento sindical, esses desafios se intensificam devido à dinâmica de atuação, que frequentemente exige viagens, reuniões em horários diferenciados e atividades aos finais de semana. “Os horários muitas vezes são diferentes, têm viagens, finais de semana. Tudo isso traz ausência em alguns momentos. Eu tenho uma compreensão e um trabalho contínuo que afina a parceria em casa com meu esposo, o que me ajuda muito, mas é sempre uma questão pra nós mães. Outro ponto também é uma presença diferenciada em outros momentos, que é quando conseguimos levar as crianças no trabalho. É importante pra nós, mas ao mesmo tempo traz uma carga excessiva, que novamente não se vê tanto no universo masculino”, explica.

Mãe de três meninos e uma menina — Nina, Tito, João e Jorge — Vivian fala com franqueza sobre as exigências de conciliar maternidade, trabalho e militância sindical.

“Quando conseguimos levar nossos filhos para alguns momentos do trabalho, isso é bom, mas também traz uma preocupação enorme. E deixá-los pesa. As noites de quem acorda para amamentar deixam os dias mais sonolentos. Parece que a gente envelhece mais rápido nessa fase”, comenta.

Para a diretora, as mulheres muitas vezes precisam percorrer um caminho mais longo para alcançar os mesmos espaços. “Parece que, se a gente chega ao mesmo lugar, é porque andou muito mais. E olha que eu tenho essa percepção e sou uma mulher branca! Existe também uma sensação de que o que a gente fala não tem o mesmo peso que o que os homens falam. Leva um tempo maior para a nossa voz ganhar espaço. Leva um tempo maior para o nosso discurso ganhar peso. Nossa voz parece mais baixa. Isso não é o movimento sindical, esse é o mundo!”, afirma.

Vivian completa falando sobre o rigor que é imposto às mulheres: “Erramos como mães, enquanto os homens erram como meninos. Explico melhor… muitas vezes, cada atitude de uma mulher é vista com um peso enorme de responsabilidade, em todas as esferas, não só no familiar, enquanto atitudes equivocadas dos homens acabam sendo praticamente desconsideradas, também nas diversas esferas da vida. Parece que, para eles, são apenas riscos na parede. Para nós, é como se tivéssemos cometido algo muito maior. Isso ficou evidente para mim no ambiente de trabalho. Tenho a impressão de que somos avaliadas com o sarrafo ‘lá em cima’. Não sei exatamente o quanto isso já me puxou para baixo ou me estressou ao longo da vida.” Ainda assim, Vivian segue confiante no avanço das mulheres no sindicalismo. “Aos trancos e barrancos, estamos caminhando”, resume, com leveza.

Apesar disso, ela reconhece avanços importantes dentro do movimento sindical bancário. “No sindicato dos bancários, as mulheres chegaram a posições de poder e trouxeram muito da sua visão. Mas os homens ainda estão se acostumando”, diz.

Referências e inspirações

Entre suas principais referências no movimento sindical, Vivian destaca a presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), Juvandia Moreira. Para ela, Juvandia representa um exemplo marcante de liderança construída com diálogo, firmeza e credibilidade.

“Não é encomenda, não é puxação de saco, é que realmente a mulher é diferente. Aprendi com a Juvandia principalmente o que é liderança. Ela fala baixo, é sorridente, mas, quando chega para discursar, todo mundo presta atenção. Quando vai defender uma posição, até quem costuma discordar para e ouve”, conta.

Vivian recorda um episódio que marcou sua percepção sobre liderança sindical. “Era uma reunião de negociação que estava com um impasse enorme, madrugada adentro. Quando a Juvandia entrou, mesmo rouca, praticamente sem voz, usando aquele tom pausado e firme, resolveu o impasse. A negociação saiu dali”.

Para ela, essa experiência reforçou sua admiração. “Ela não é a maior liderança feminina que eu vi atuar de perto. Ela é a maior liderança que eu vi atuar de perto”, afirma.

Outra inspiração importante em sua visão de mundo vem do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, especialmente por suas reflexões sobre o valor do tempo e sobre prioridades na vida.

Um chamado às mulheres

Neste mês da mulher, Vivian reforça a importância da união entre mulheres e da presença feminina nos espaços de decisão.

Para ela, a construção de um mundo mais equilibrado passa necessariamente pela ampliação da participação das mulheres na política, no trabalho e no movimento sindical. “Não estamos aqui para competir umas com as outras”, afirma.

Ela lembra de um episódio recente que a marcou: um vídeo em que duas mulheres que haviam acabado de bater o carro terminaram a situação com um abraço. “Nós sabemos o que realmente importa sempre que conseguimos nos escutar”, diz.

Na avaliação de Vivian, a presença feminina nos espaços de poder é essencial para transformar as formas de organização da sociedade. “O mundo precisa que a gente se disponha a enfrentar as barreiras que surgirem para cavar nossos espaços de poder e mostrar que outro mundo é possível. O que temos hoje, muitas vezes dominado por uma lógica masculina, acostumada à violência e aos acúmulos excessivos, tem se mostrado bastante problemático. A saída sempre esteve por perto, convivendo com essa realidade ao longo do tempo. Somos nós.”

Ela complementa: “Eu não sei se é nosso aprendizado ao longo da história que fez isso, me parece que sim. Aprendemos a nos ajudar, a cuidar das famílias. Outra mulher assume parte das responsabilidades quando uma está doente, teve bebê ou algo assim. Alguém vem, faz um almoço, ajeita aqui ou ali. Os homens geralmente são cuidados por alguém, me parece que essa lógica está mais distante. A competição que esse mundo impõe a todos nós, para as mulheres, vem depois.”

Para ela, a construção de um futuro mais equilibrado passa necessariamente por uma lógica mais colaborativa.

“O problema é que esse mundo, nessa lógica, já se provou perigoso e beira o caos o tempo todo. Só um mundo colaborativo pode chegar a um futuro melhor. E sem as mulheres nos espaços de poder, parece que eles não sabem construir esse mundo”, conclui.

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